Domingo, 26 de Junho de 2005

Dalai Lama: Aos que não prestam atenção àquilo que dizem

AOS QUE NÃO PRESTAM ATENÇÃO ÀQUILO QUE DIZEM

Apercebemos frequentemente a realidade de uma maneira errada e
exprimimos essa nossa visão das coisas no nosso discurso, sem
verdadeiramente termos a intenção de mentir.

No Tibete conta-se a história de um homem que tinha visto um peixe enorme. Quando lhe
perguntaram de que tamanho era o peixe, ele respondeu, juntando o
gesto à palavra, que era realmente muito grande. Como os outros
insistissem — «mas exactamente de que tamanho?» — o peixe tornou-se
um pouco mais modesto. «Vá, diz lá, quanto é que media o teu peixe?»
Aí o peixe passou a ser real¬mente muito pequeno.

Não se pode dizer que o homem tinha começado por mentir. Tinha simplesmente falado sem prestar atenção àquilo que estava a dizer.

É estranho, mas há pessoas que se exprimem sempre assim. Os
tibetanos têm muito essa mania. Quando contam uma coisa não
apresentam provas e ninguém lhes pergunta como e de onde veio essa
novidade. As pessoas que têm essa tendência deviam prestar atenção
àquilo que dizem.

Numa certa perspectiva, é bom falar pouco e só quando temos algo para dizer.

A linguagem é um dos traços característicos e
extraordinários da raça humana, ainda que certos animais, como os
golfinhos ou as baleias, pareçam igualmente comunicar de uma maneira
complexa. Contudo, se examinarmos de perto a linguagem, damo-nos
conta do quanto ela é limitada. Os conceitos e as palavras que
utilizamos isolam artificialmente as coisas, visto que os objectos
que elas designam possuem inumeráveis facetas em contínua mudança e
resultam de um número igualmente incalculável de causas e de
condições.

Quando nomeamos um aspecto da realidade eliminamos
mentalmente todos os outros e designamos o objecto escolhido por uma
palavra que apenas se aplica a esse objecto e permite reconhecê-lo.
De seguida, segundo a utilização que lhe damos, estabelecemos
distinções — este objecto é bom, aquele mau, e assim por diante —
quando na verdade é impossível atribuir propriedades intrínsecas ao
que quer que seja. Daí resulta uma visão da realidade que na melhor
das hipóteses é parcial e na pior francamente falsa.

Portanto, por muito que a linguagem seja rica, o seu poder é muito reduzido.
Apenas a experiência não conceptual permite aperceber a verdadeira
natureza das coisas.

O problema da linguagem existe em muitos outros domínios, na
política, por exemplo. Os políticos elaboram programas simples para
resolver problemas complexos ligados a numerosos factores. Fazem-no
como se fosse possível encontrar soluções através de conceitos e de
palavras tais como marxismo, socialismo, liberalismo,
protecionismo, etc. Entre a multidão de causas e condições
responsáveis por uma dada situação, isolam uma ou duas sem terem em
conta uma quantidade de outras. Por isso nunca encontram uma
verdadeira resposta, abrindo o caminho a todo o tipo de mal-
entendidos.

Na minha opinião, isto é em si a raiz de muitos
problemas. Infelizmente, não temos alternativa, temos de passar
pelas palavras e pêlos conceitos.

Em conclusão: mais vale utilizarmos a linguagem apenas quando é
útil. Falar muito sem ser verdadeiramente necessário é como deixar
crescer num jardim milhares de ervas inúteis. Não seria melhor haver
menos?"

Extraído do livro "Conselhos do Coração", da autoria de Sua
Santidade o Dalai Lama, à venda em livrarias em Portugal. Atenção, não confundir com o livro "Palavras do Coração" do mesmo autor!
publicado por edito às 06:38
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1 comentário:
De o_teco a 27 de Junho de 2005 às 00:19
É ... temos que prestar atenção !!!!


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